Ana Holanda da Vida Simples, exclusiva em O Badulaque

July 7, 2017

A editora chefe da revista mais humana do Brasil conversa com nosso Blog e abre seu coração entregando os caminhos para viver com um olhar mais afetivo sobre a vida, as pessoas e o trabalho

 

 

 Foto: Rafaela Toledo

 Ana Holanda recebe O Badulaque em conversa afetiva

 

 

Ana Holanda é jornalista há 20 anos e há seis atua como editora chefe da revista Vida Simples que tem 15 anos de história. Já passou pelas principais redações do país mas se encontrou no estilo de narrativa que desenvolveu e chamou de escrita afetiva. Também assina o projeto online Minha Mãe Fazia que acabou de virar livro. É embaixadora e professora da The School of Life no Brasil e colunista da Revista Máxima (Comida da Alma). Mas o mais importante a se dizer sobre ela é que sua humanidade transborda pelos textos que escreve, pelas palavras que escolhe e pessoalmente, até pelo seu olhar. Um "olhar afetivo" sobre a vida é tudo o que esta jornalista sempre buscou e concretizou.

 

Seu curso de escrita criativa e afetuosa já passou pelas principais capitais do país, recentemente por São Paulo, promovido pela Kind e logo mais vai pousar em Brasília, no próximo dia 19 de agosto, no Co-Piloto, das 10h às 19h. "Para afetar, marcar e conversar verdadeiramente por meio das palavras escritas", descreve Ana. Se informe melhor aqui.

 

Veja agora como foi a conversa exclusiva dessa diva das letras com o Blog do Badulaque. Não se esqueça de compartilhar. Estamos cada dia mais próximos de nossas referências e com isto, de nossa essência. ;)

 

O Badulaque - Ana, levar uma vida simples é o sonho de muitos. Costumo dizer que vocês ensinam a viver. Antes de chegar nesta maturidade profissional, o que despertou o seu olhar para o poder do corriqueiro? Da simplicidade?

 

Ana Holanda - Eu comecei a ter esta percepção porque o jornalismo em especial fica te pedindo o tempo todo para você vir com o tal furo de reportagem, com o ineditismo, com o "olhar incrível". E a gente é muito educado, na escola, de uma maneira geral - não que não hajam escolas com modelos inovadores e que já tenham despertado este olhar mais criativo, mais conectado com a vida - mas de uma maneira geral, nosso sistema educacional desde a escola até a faculdade coloca a tua referência como o outro. Mas o outro naquilo que ele lhe é superior.

 

A gente está sempre muito respaldado nos filósofos, historiadores, sociólogos. A sabedoria está muito ligada aos títulos que a pessoa tem, ao mestrado, doutorado, pós-doc. O mercado pede 250 mil cursos de especialização. Já teve a onda dos supercursos de especialização caríssimos. Então parece que está sempre muito nisso. Primeiro, focado no ter. Na educação que você tem que ter. Cara. Inacessível. Difícil de conquistar. Essas miudezas do cotidiano são colocadas num plano inferior… do que não tem valor… Até porque se você olhar, é uma sabedoria tão próxima da gente, tão à mão. Você não precisa pagar por isso. Ela está na tua vida. E eu acho que todo o sistema que a gente vive tem que entrar nesta esfera do consumo da sabedoria… Inclusive sobre a forma de consumir.

 

Foto: Rafaela Toledo

 Ana conta sobre sua trajetória e os projetos atuais

 

Eu comecei a me dar conta disso de maneira muito atrelada à maternidade. Mais do que o nascer dos meus filhos, acompanhar o crescimento deles. Quando eu falo acompanhar… Eu não sou uma pessoa que parei de trabalhar, para cuidar dos meus filhos. Isso daí abre outro questionamento, eu acho. Às vezes, no tempo que a gente dedica a eles não necessariamente estamos com eles.

 

No tempo que eu tenho para meus filhos, não que eu sempre consiga, mas eu tento estar com eles de verdade. Tem algumas coisas que me coloquei para fazer. Por exemplo, eu posso não levá-los na escola mas eu busco. Eu caminho muito com eles pelas ruas. Eu vou a muitos lugares com eles. Eu os levo para médico, dentista, tarefas que as mães têm para fazer com eles...

 

Mas eu tento estar sempre junto e foi nessa percepção deles, no olhar do encantamento que a criança tem com tudo, com uma folha que cai, com uma borboleta que está no chão, preocupação com um passarinho que se machucou… que comecei a me despertar para este belo. Para esta poesia. Para isto que está tão na nossa vida e que a gente não percebe.

 

Se você for olhar, tem muita gente que fala sobre isso. Manuel de Barros, foi um cara que super se inspirou nestas miudezas, nessas delicadezas, nesta magia, nesta poesia que existe no cotidiano.

 

Foto: http://blogdoitarcio2.blogspot.com.br

Manuel de Barros, poeta brasileiro inspirado pelas simplicidades 

 

A Cora Coralina foi uma mulher que começou a se transformar em escritora com mais de 60 anos. Uma pessoa muito simples também e toda sua escrita veio desse olhar para a vida. A própria Vida Simples, me aproximou de muita gente que veio corroborar com este meu olhar. gente que tem projetos ou trabalhos focados nas miudezas do dia-a-dia, na poesia do cotidiano, gente que trabalha com produção artesanal cuja inspiração vem muito da própria história.

 

Foto: http://luzdocerrado.blogspot.com.br

 Cora Coralina, poetiza goiana, inspiração para Ana

 

Conversar com gente que socialmente é visto como alguém que tem sabedoria, ou que tem algo a mais... Vou dar o exemplo do Marcelo Rosenbaum… Quando você conversa, a pessoa te traz muita inspiração. Te traz muitos insights, muitas reflexões desta delicadeza, desta sabedoria que, de novo, é inerente ao que a gente é. Que vem com a gente. Que vem da tua criança, da tua raiz, da tua origem, seja ela qual for.

 

Cada pessoa vai ter um filtro, cada pessoa vai ter uma história. Esta riqueza que é inerente à qualquer sistema educacional, que segue com a gente e nós desvalorizamos, foi que trouxe para mim esta inspiração de olhar para a vida de forma simples.

 

E é difícil porque na verdade você tem que desconstruir todo este sistema que é pesado para a gente, tirar todas estas camadas e começar a olhar este simples que está muito conectado com a nossa essência.

 

O Badulaque - A Ana Holanda de hoje é muito diferente daquela de 15 anos atrás? A Vida Simples mudou você como fez com tantos brasileiros? Como?

 

Ana Holanda - Eu acho que a Vida Simples me trouxe a segurança e a maturidade para eu espalhar mais, para eu compartilhar mais com as pessoas algo que já me habitava. Não acho que aconteceu uma transformação. Aconteceu um amadurecimento.

 

Foto: Facebook de Mariana Bellucci de Almeida

 Edição de julho de 2017 da revista Vida Simples, onde Ana é editora chefe há seis anos

 

Eu acho que a Ana de hoje é muito mais madura do que a de 15 anos atrás. Há 15 anos eu estaria ainda muito presa à cartilha do que me diziam que era correto. Hoje eu tenho a segurança e a maturidade para perceber, para apostar nas minhas ideias, nos meus caminhos. Mas não é uma segurança baseada em valores. É muito mais sobre quem eu sou, sobre minha maturidade. Mesmo que esta segurança me leve à uma situação que externamente pode parecer de extrema insegurança. Mas eu sei a essência e estou seguindo, estou acreditando. Pode parecer estranho para quem olha de fora mas para mim faz muito sentido.

 

Vou te dar um exemplo: quando eu comecei a falar sobre a escrita afetuosa, há dois anos e meio ou quando eu comecei o próprio projeto Minha Mãe Fazia, há quatro anos, existia um amadurecimento interno muito forte meu de saber que eu deveria acreditar naquilo que nascia dentro de mim. Que eu deveria acreditar nas minhas ideias, que elas faziam sentido.

 

Externamente, a pressão que me vinha era que eu precisava criar um modelo de negócios para aquilo. Que eu precisava estruturar… Em vez de ficar perdendo tempo pensando em dar cursos, escrever livros, fazer uma página no Facebook, eu deveria estar preocupada em ter uma melhor formação para quando o meu tempo de Vida Simples acabasse. Para ir para o mercado corporativo. Só que isso não fazia o menor sentido para mim. Isso me entristecia. Eu sabia que minha alma não combinava com estas opções. Eu preferi acreditar no que tinha mais a ver comigo. Então, esta Ana de agora aposta mais nisso e segue em frente.

 

Foto: Rafaela Toledo

 Ana Holanda em curso ministrado em São Paulo pela Kind

 

Eu acho que esta é a grande diferença: está ligada à uma maturidade interna muito maior que a Vida Simples também me ajudou a ter porque me colocou muito em contato com pessoas, trabalhos, projetos que também me ajudaram a perceber que eu não estava sozinha.

 

Destes sentimentos, às vezes, o que eu acho que é mais difícil é a sensação de inadequação que a gente tem. A revista, o projeto da Vida Simples, que eu falo que é muito mais do que uma revista, é uma voz, te proporciona o encontro de vozes, de pensamentos, com um caminho comum. Muito mais conectado com quem a gente é de verdade, com a nossa essência.

 

O Badulaque - Qual o segredo para você não esmorecer este olhar afetuoso para a realidade diante de uma momento crítico, da política nacional e da humanidade em geral, no mundo inteiro?

 

Ana Holanda - Eu entendi que o trabalho é muito de semente. De semear. De pequeno. Eu tenho a exata noção hoje que o meu poder, das ideias que eu compartilho com as pessoas, pode não estar na grande mídia e reverberar em massa mas têm um impacto tão forte nas pessoas e uma capacidade de replicar tão grande…

 

Você causa um impacto no outro e este outro passa a disseminar seu olhar em seus grupos. Então é pequeno mas é forte, é impactante, é marcante e para mim isto é muito mais profundo, interessante e conectado com o que eu sinto do que eu tentar atingir todo mundo e ser superficial para uma grande massa. Porque eu acho que isto é muito passageiro. Mas quando você mostra para uma pessoa um caminho que é tão dela, tão ligado à essência dela é tão mais profundo que isto modifica a pessoa para sempre.

 

Muita gente fala que quando passa pelos meus cursos, isto se torna um divisor de águas na vida delas. Eu fico muito emocionada quando uma professora faz um curso meu e depois me manda uma foto dos alunos que fizeram todo um trabalho de texto de narrativa em primeira pessoa. Que eles buscam da maneira deles, na raiz deles, não só aquela preocupação de fazer um texto para passar no vestibular.

 

Eu acho que espalhando as ideias desta maneira, eu posso não modificar políticas, mas modifico as pessoas. Penso que assim temos uma capacidade muito maior de transformar a nossa realidade. E é isso que me faz não esmorecer mesmo diante de um cenário com tantas dificuldades.

 

O Badulaque - Como uma marca que tem sentimentos como O Badulaque pode sobreviver nesta sociedade que privilegia o industrial em detrimento do artesanal?

 

Ana Holanda - eu acho que o caminho dela é exatamente muito similar à resposta anterior. Talvez ele nunca vá ser uma marca de massas. Mas para um grupo de pessoas será extremamente importante.

 

Mesma coisa do exemplo do pão que eu costumo usar. O cara que faz o pão artesanal, cheio de alma e dele mesmo - e eu tenho certeza que O Badulaque está cheio de alma, de história, dele mesmo, com vida própria, - nunca vai atingir a maioria. O padeiro artesanal não tem como competir com a indústria do pão, do pão de caixa, pronto. Mas tudo bem! Cada um tem o seu papel, tem o seu caminho. Penso que temos que nos focar muito mais no que faz sentido para a gente.

 

Foto: Rafaela Toledo

 Ana apresenta o livro de contos e receitas que assina resultado do projeto online no Facebook

 

Eu passei por todo um processo este ano criando este livro e uma pessoa que queria cuidar da comunicação, com quem eu acabei não trabalhando, achava que tudo o que eu falava em relação a comida afetiva tinha um potencial de programa de TV.

 

Foto: Facebook Luciane Coelho

Livro sobre culinária afetiva recentemente lançado por Ana Holanda

 

Ela queria me colocar para fazer mil reuniões com produtoras. Toda aquela conversa me incomodou profundamente e eu não entendia porque havia me incomodado tanto. Eu liguei para a pessoa e disse que não queria fazer nada daquilo, não queria seguir aquele caminho porque isso iria me tirar um tempo muito rico para mim que é o tempo que tenho com meus filhos.

 

Se eu deixar de buscá-los na escola e sair caminhando com eles todos os dias, as quatro quadras do nosso caminho, se eu deixar de ter estas conversas com eles, eu vou perder um pouco de quem eu sou. Aí as coisas começam a deixar de fazer sentido. Eu acho que começaria a perder o fio da minha conexão que hoje é com meus filhos, que é a mesma que eu tenho com meus alunos nos meus cursos…

 

A gente às vezes, por uma pressão externa de mercado, começa a nos colocar em um patamar que nos leva ao afastamento do outro. Aí você perde a conexão com o outro, com as pessoas.

 

Podemos pensar esse assunto por muitos caminhos. Podemos por exemplo nos questionar sobre o que é sucesso. Qual o parâmetro do sucesso? Qual é a felicidade ligada ao sucesso. Eu acho que tem gente que pode ter um trabalho súper simples a vida toda e ser extremamente feliz com aquilo. O parâmetro de sucesso dela é diferente, não está ligado ao que ela tem materialmente mas o que ela tem dentro dela. Eu acho que é isso que tem que estar bem claro.

 

 

 




 

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